Ontem depois de ter arrumado o carro na minha rua, como faço todos os dias, numa rotina
mêcanica semi-vazia, deparei-me com este gato preto sentado no cimo de umas pequenas escadas a olhar directamente para mim.
mêcanica semi-vazia, deparei-me com este gato preto sentado no cimo de umas pequenas escadas a olhar directamente para mim.
A principio não lhe prestei atenção, era mais um dos gatos vadios da minha rua, o meu primeiro pensamento é que ele estaria a tentar descobrir se eu teria algum bocado de comida para lhe dar.
Continuei a tirar as coisas do carro para levar para casa, quando me virei para fechar o carro e dirigir-me para o prédio, reparei que o gato continuava exactamente na mesma posição, impassível, a observar-me atentamente.
Não sei se foi o facto de este gato ser completamente preto (os gatos pretos sempre foram assoc iados a superstições de azar e de bruxarias) e ter olhos cor de âmbar, que me despertou a atenção, e me pôs a olhar para ele durante uns bons minutos ou se foi o facto de este estar a fazer exactamente o mesmo.
Em algumas culturas o gato é um poderoso símbolo espiritual. No Antigo Egipto, matar um gato era um crime punido com a morte, pois acreditavam que o gato era o protector dos mortos e o guarda do equilíbrio entre a vida e a morte. Matar um gato era como lançar a mais terríveis das pragas sobre o reino, e por isso o preço a pagar era a pena de morte.
Na Cultura tradicional Irlandesa (Celta) o gato é o representante da alma, as almas começam juntas, mas quando passam pelo processo da reencarnação, separam-se. Os Celtas acreditavam que quando alguém se cruzava com um gato ou sonhava com um gato, era sinónimo de que tinha encontrado a sua alma gémea, ou que isso iria acontecer muito brevemente. Para quem já fosse casado era um sinónimo de prosperidade para o casamento, devido a esta crença quase todos os celtas possuíam um ou dois gatos, além de exterminarem as pragas, como ratos, era um bom presságio possuir um gato em cada casa.
Já na cultura cristã, um gato preto era sinónimo de má sorte, morte e um mau presságio, por isso durante as idades médias da história, os gatos pretos foram queimados em fogueiras, juntamente com as "supostas bruxas", ou seja, pessoas que não se orientavam pelos princípios básicos da igreja e praticavam actos de paganismo.
História e factos á parte, não posso deixar de dizer que aquele gato me transmitiu algo, o que não sei, provavelmente foi apenas fruto da minha imaginação, talvez o meu estado de espírito já se encontrasse perdido, absorto em pensamentos e memórias apesar de eu não estar a pensar em nada, talvez fosse a aborrecida rotina diária que me tenha feito acreditar que o gato me estava a analisar meticulosamente, e enquanto o fazia me tentava transmitir o conhecimento que tinha adquirido durante a sua vida (é costume dizer-se que os gatos tem 7 vidas, devido á sua longa longevidade, e á sua fantástica flexibilidade)
Ao olhar para mim com aqueles olhos de âmbar, fez-me relembrar tudo o que vivi até hoje, todas as minhas alegrias e todas as minhas tristezas, todas as minhas vitórias e todas as minhas derrotas, e, no entanto, não me senti triste, não me senti feliz, não me senti completa, ou incompleta, senti que tinha um caminho a percorrer e que não posso desanimar.
Com esta reflexão, virei costas e dirigi-me para casa, ao olhar relançadamente para trás notei que o gato já ali não estava, sorri e continuei o meu caminho.




